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A maioria dos alunos chegou ou chegaram, as duas passam
O núcleo maioria pede singular, o complemento no plural autoriza o verbo plural, e a norma aceita as duas.
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As duas formas na mesma ata
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Sete e meia da noite, sala dos professores de uma escola estadual, ata de reunião pedagógica sendo digitada por uma coordenadora com o notebook apoiado na mesa de fórmica. A primeira linha do registro sai assim: a maioria dos alunos chegaram atrasados nas duas primeiras aulas da semana.
O professor de português leu por cima do ombro dela e pediu para trocar chegaram por chegou. A coordenadora apagou, escreveu o singular, e o professor de história, que tinha lido a versão antiga, perguntou por que a frase piorou de repente.
A discussão durou oito minutos e não chegou a lugar nenhum, porque as duas linhas passam na norma escrita. A gramática registra a construção com maioria de como caso de dupla possibilidade, e nenhuma das versões precisaria de correção.
O motivo cabe na anatomia do sujeito. Maioria é um substantivo coletivo no singular e é o núcleo da expressão, mas ele vem seguido de um complemento no plural que carrega os seres reais da frase, os alunos que efetivamente entraram pela porta depois do sinal.
O verbo pode olhar para qualquer um dos dois. Se ele concorda com o núcleo, sai no singular e coloca o foco no bloco, na fatia, na parte que se destacou do total. Se concorda com o complemento, sai no plural e coloca o foco nos indivíduos que compõem essa fatia.
A escola inteira aprendeu que concordância verbal é conta de uma resposta só, e por isso a segunda opção soa como descuido. O plural parece erro de digitação para quem foi treinado a procurar o núcleo do sujeito e nada mais, e é esse desconforto que a banca de concurso aproveita.
O item de prova quase nunca cobra a versão confortável. Ele monta uma frase com maioria e pergunta se a alternativa com verbo no plural está certa, contando que o candidato marque erro por instinto de sala de aula.
A questão de hoje começa por essa ata da reunião pedagógica, com as quatro versões que circulam em documento escolar e relatório de trabalho, e a pergunta de quais delas passam na norma. Depois vem a regra que explica de onde nasce a dupla escolha e o que muda de sentido em cada uma, e o teste que resolve a linha antes de o documento ser assinado.
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I A Dúvida do Dia
Chegou e chegaram na mesma ata
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Uma frase, dois alvos.
A dúvida cabe em quatro linhas quase idênticas: a maioria dos alunos chegou atrasada, a maioria dos alunos chegaram atrasados, a maioria dos alunos chegaram atrasada, a maioria chegaram atrasados. As quatro saem de texto real, de ata escolar, de relatório de turma, de mensagem de coordenação e de parecer pedagógico.
Duas delas passam na norma escrita e duas caem na correção, e a divisão não tem nada a ver com formalidade nem com o tamanho do documento. O que decide é a coerência: escolhido o alvo da concordância, tudo o que depende dele acompanha a mesma escolha até o fim da frase.
A maioria dos alunos chegou atrasada é a primeira linha correta. O verbo concorda com maioria, o núcleo singular e feminino, e o particípio atrasada segue o mesmo alvo, no feminino singular, porque a frase inteira está falando do bloco.
A maioria dos alunos chegaram atrasados é a segunda linha correta. O verbo concorda com alunos, o complemento no plural, e atrasados acompanha no masculino plural, porque agora quem está sendo descrito são os estudantes, um a um, e não a fatia da turma.
A maioria dos alunos chegaram atrasada é a versão que cai. Ela mistura os dois alvos dentro do mesmo período, com verbo puxado pelo complemento e adjetivo puxado pelo núcleo, e a incoerência aparece na primeira leitura em voz alta.
A maioria chegaram atrasados é o outro desvio, e nasce da pressa de quem cortou o complemento. Sem os alunos escritos na frase, maioria fica sozinha como sujeito e só admite singular, porque não sobrou palavra no plural que justifique a outra concordância.
A distância entre o núcleo e o verbo é o que a banca explora. O item põe a maioria dos alunos matriculados no turno vespertino, atravessa duas linhas de aposto, e só então solta o verbo, quando o candidato já não sabe qual palavra manda na flexão.
O adjetivo é a segunda armadilha e derruba quem decorou só a primeira metade da regra. Muita gente sabe que o verbo tem duas saídas e esquece que o predicativo tem de seguir a mesma escolha, e o resultado é uma frase que começa no bloco e termina nos indivíduos.
O parente próximo confunde na mesma medida. Metade dos candidatos desistiu e metade dos candidatos desistiram funcionam pelo mesmo mecanismo, e o mesmo vale para grande parte de, um terço de e a maior parte de, todas expressões partitivas com complemento no plural.
Quem escreve a ata com a mistura dos dois alvos segue a semana sem consequência nenhuma. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer justamente a linha híbrida entre as alternativas, e ela é a única que não sobrevive à leitura atenta do gabarito.
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II A Regra
O verbo escolhe o foco, não o certo
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Em expressão partitiva seguida de complemento no plural, o verbo pode concordar com o núcleo singular ou com o complemento plural, e as duas passam na norma. O que a escolha muda é o foco, no bloco ou nos indivíduos, e todo adjetivo da frase precisa seguir o mesmo alvo.
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A regra tem duas decisões e as duas são rápidas. A primeira é escolher o alvo da concordância antes de escrever o verbo. A segunda é manter esse alvo até o ponto final, arrastando junto particípio, predicativo e qualquer pronome que retome o sujeito.
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"Quando o sujeito é constituído de expressão partitiva seguida de complemento no plural, o verbo pode concordar com o núcleo da expressão ou com o complemento, ficando a escolha por conta do que o escritor quer pôr em relevo."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 2009
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A gramática registra a dupla possibilidade como recurso do escritor, e não como tolerância a um descuido. Chegou e chegaram entregam a mesma informação para a coordenação da escola, e a diferença está em quem ocupa o centro da cena, o grupo inteiro ou as pessoas dentro dele.
A primeira situação é a mais simples, com núcleo e complemento colados: a maioria dos professores votou, a maioria dos professores votaram, a metade dos inscritos faltou, a metade dos inscritos faltaram. Todas passam, e a escolha de foco é a única coisa em jogo.
A segunda situação é a da frase esticada, e ela é a que derruba mais gente. O período empilha aposto e oração intercalada entre o sujeito e o verbo, e o escritor acaba concordando com a última palavra que ficou na memória, sem saber se ela era núcleo ou complemento.
A terceira situação é a do complemento no singular, que fecha a porta da dupla escolha. A maioria da turma faltou só admite singular, porque turma é singular e não existe palavra no plural na frase que autorize a outra concordância.
A quarta situação é a do complemento ausente, que também trava a escolha. A maioria decidiu ficar exige singular puro, e o plural que aparece em texto de trabalho vem da cabeça de quem estava pensando nas pessoas que a palavra maioria representa, mas não escreveu nenhuma delas.
Um detalhe fecha o quadro e resolve muita dúvida de documento profissional. Quando a partitiva traz número, como a maioria dos vinte alunos, a regra não muda: manda o plural do complemento, nunca a quantidade citada antes dele.
Um vizinho ajuda a fixar o desenho. O par um dos que segue lógica parecida, com o verbo oscilando entre o singular do um e o plural do grupo, e o desvio nasce igual, de escolher um alvo no começo da frase e outro no fim.
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